terça-feira, 12 de abril de 2011

Luís da Câmara Cascudo
Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Eu gostaria de saber qual o traço mais marcante da cultura popular brasileira. Gostaria de saber, pelo seguinte, porque uma cultura popular é milenária e contemporânea. É de todas as épocas e do momento. A nossa vem das fontes mais antigas e variadas. Das indígenas, de onde vieram os nossos indígenas, qual as fontes étnicas culturais deles; quantas raças a África exportou nos navios negreiros para o Brasil.
     Cada um grupo étnico, era uma cultura, uma memória, uma projeção na nascente cultura brasileira, que era a miscigenação. Portugal é um tabuleiro de raças. Ali estavam todos os romanos, os celtas, os árabes e tudo isso veio para o Brasil, e naturalmente, logicamente, desse atrito a forma foi a mais inesperada, e a força de concentração mantém os elementos perenes, mas o tempo vai diferenciando, aculturando todas essas coisas.

Luís da Câmara Cascudo
Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Fui professor de Direito e daí pensar que os órgãos tem direito de aposentadoria, aposentadoria plena. A minha audição aposentou-se, e com ela perdi as intimidades do som. Ora, para um professor de cinqüenta anos de exercício, falando sem ler, habituado às narrativas, aos pareceres e às disputas, não ouvir a voz humana, não ouvir o canto e a música, para quem foi vinte e cinco anos professor de História da Música e pianeiro. Não ouvir, pois, a voz humana, que é a projeção mais viva da individualidade, o timbre, a entonação, a veemência, a doçura... nada. Mas a surdez em Renier, em Beethoven, foi uma força propulsora, em mim é uma virtude contemplativa, é a maneira de ensimesmado, eu fazer os meus depoimentos silenciosos do meu passado e a história ainda indecisa do meu futuro.
     Longe de exasperar-me, a surdez torna mais suave os contornos da vida. Eu penso em Manoel Bandeira, que era surdo também, e toda vez que dizia que era surdo, completava “Graças a Deus”, porque a surdez o livrara de milhares e milhões de frases inúteis, de pareceres e de confidências dispensáveis.
     Por isso, eu agradeço, eu, não Manoel Bandeira, eu agradeço a surdez ter me evitado tanta coisa desagradável. Ouço o que me apraz, porque quem está falando para mim, eu transformo a gesticulação em idioma, e empresto valores fisionômicos a sua eloqüência.
     Assim, é sempre agradável ouvir o que não se ouve, ouvir com a sensibilidade.
    Sou uma coisa rara. Sou, sabidamente, um velho bem humorado. É porque a surdez põe muito de distância, arminho e pelúcia nos pensamentos. É preciso muita obstinação para me ser desagradável, é preciso escrever e insistir, mesmo assim a mensagem contundente, perde os ganchos e as arestas, e eu transformo os cacos de vidro em bolinhas para os meus netos brincarem.

Luís da Câmara Cascudo
Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Porque resisti aos feitiços da política eleitoral e os amavios dos postos administrativos, ainda tão sedutores. Simplesmente porque não encontrava neles equivalência amável as minhas predileções. Resisti mesmo ao Senado, insistência do doutor Getúlio Vargas. Nunca fui secretário de Estado, nem oficial de gabinete, fui sempre presidente da minha república, escravo das minhas predileções, escravo negro de eito, cantando, cortando cana ou despolpando algodão nas minhas propriedades invisíveis, mas existentes em mim mesmo.
     Fui, como serei até fechar os olhos, um grande trabalhador nos terrenos da minha simpatia. Os outros, tão respeitáveis para mim, não existem, nem podem existir na minha participação.

Luís da Câmara Cascudo
Câmara Cascudo - Fonte: Carlos Lyra     O amor para mim foi um estímulo, não só no que realizei culturalmente, como na serenidade do meu lar, a fidelidade àquela menina de 1925, que eu casei-me em 29, e continua com a idade com que eu a conheci. Mas mesmo para Dáhlia, para minha mulher, para Dalequinha, nós atravessamos a diversidade dos amores: o amor do namoro, do noivado, do matrimônio, da paternidade, dos filhos, dos avós.
     A vida foi mudando e o nosso amor foi tomando nuanças mais penetrantes, de variedades que a nossa sensibilidade empresta. Assim, nós dois de mãos dadas, vemos a paisagem hoje com olhos que não víamos quando éramos namorados. Não sei qual foi a escritora, penso que foi Mme. de Sevigné que disse: “Veja as belezas da Itália enquanto não se apaixona, porque depois de se apaixonar verá as coisas todas diferentes”.
     Mas para um trabalhador mental como eu, o amor foi um estímulo, a força, a fidelidade, a alegria do trabalho e da posse. Ainda posso ficar ao lado da minha mulher muito tempo de mãos dadas, sendo suficiente a sua presença. Ao mesmo tempo mando, dou de comida as duas rolinhas que estão passeando. Essa diversidade, essa sensibilidade omnímoda pelas coisas vem do amor, da ternura com que se dê a paisagem humana e a figura que, lentamente envelhece ao nosso lado.
     Natal, minha cidade Natal, é o cenário imóvel na minha memória. Natal foi a impressão primeira, o ambiente emocionador da minha meninice, adolescência e madureza. O homem é a cidade em que nasce. O povo da minha cidade foi a minha curiosidade inicial, a pesquisa do repórter, a análise do estudioso. O povo na convivência termina sendo a grande família anônima, da qual nós vivemos. Por isso, eu acredito aos oitenta anos, que quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos.

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