Zila Mamede publicou seis livros de poesia: Rosa de pedra (1953); Salinas (1958); O arado (1959); Exercício da palavra (1975); Navegos (1978, reunindo o conjunto de sua poesia publicada mais um novo livro – Corpo a corpo); A herança (1984).
Como pesquisadora, publicou: a) Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918-1968; bibliografia anotada… Natal: Fundação José Augusto, 1970. 2v. em 3; b) Civil geometria. São Paulo: Nobel/edusp/INL/Vitae, 1987. 524 p.
Organizador deste link: Carlos André Pinheiro (PPgEL/UFRN).
Fonte: Revista da FARN, Natal, v.4, n. 1/2, p. 157-160, jul. 2004/dez. 2005. Textos de Paulo de Tarso Correia de Melo e de Gildete Moura de Figueirêdo.
Apresentação por Carlos André Pinheiro:
Zila da Costa Mamede nasceu em setembro de 1928 em Nova Palmeira, pequena cidade localizada no interior da Paraíba. Passou parte da infância no sítio do avô, que acabou se transformando em um importante espaço para a formação cultural da autora. Ainda criança, mudou-se com a família para Currais Novos (RN), onde o pai iria trabalhar na manutenção de máquinas utilizadas no campo. Em plena Segunda Guerra Mundial, os conhecimentos mecânicos do pai levaram-no à capital potiguar para trabalhar na base aérea local. Uma vez instalada em Natal, Zila Mamede assumiria a cidade como o lócus poético majoritário da sua obra.
Em 1953 publica Rosa de pedra, seu primeiro volume de poesias. Nele, o sujeito e o mundo estão em constante desintegração – o que, de certa forma, assinala o etos do fragmentado homem moderno. Por isso mesmo, imagens e símbolos são utilizados para compor as cenas de uma realidade impressionista, marcada pela efemeridade e pela vertigem. O livro é levemente guiado por princípios da geração de 45, sobretudo no que diz respeito ao uso do soneto e das imagens concretas; essa filiação também justifica o caráter ambíguo da obra, que parece ter uma base na tradição e outra na modernidade. Apesar de o tom retórico ter prejudicado um pouco o estilo, as belas imagens que compõem o livro são suficientes para atestar a sua alta qualidade, tanto que Manuel Bandeira chegou a considerá-lo um dos dez melhores volumes de poesia publicados no país.
A partir de então, Zila Mamede começou a conciliar a carreira literária com atividades desenvolvidas em outras áreas. Primeiro matriculou-se no curso de Biblioteconomia do Instituto de Educação; depois, foi aprovada no curso de Direito, mas abriu mão a favor de uma formação como bibliotecária. Em 1957, foi para o Rio de Janeiro fazer o Curso Superior de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional. Nessa ocasião, foi enviada à Europa pelo jornal O globo para cobrir um evento religioso.
Em 1958 publica seu segundo livro de poesias. Em Salinas ainda persiste o tom de um discurso intimista, mas já se nota certo afastamento das imagens surrealistas e do caótico universo interior que marcaram a obra antecedente. A fortuna crítica costuma vê-lo como uma obra de transição – termo perigoso, impreciso e um tanto equivocado: primeiro porque muitas mudanças operadas neste livro não tiveram continuidade no volume seguinte; depois, a posição transitória tende a minimizar o valor da obra, quando ela é na verdade, do ponto de vista estilístico e estético, um dos trabalhos mais graciosos de Zila Mamede. Em Salinas a poeta operou o refinamento da linguagem, que passa a ser mais objetiva sem, com isso, perder o encanto típico do gênero lírico. Outra importante mudança diz respeito à captação das cenas familiares e dos motivos externos, dando à obra uma dimensão social (ainda que tímida) que era quase inexistente em Rosa de pedra.
Em 1959 Zila Mamede publica O arado, obra fundamentalmente amparada na tradição do passado rural. É certo que as cenas sertanejas constituem um dos fatores responsáveis pela popularidade do livro, mas elas também mostram que Zila Mamede extraiu da própria experiência de vida o mote para a composição de seus poemas – o que, de certa forma, justifica o caráter vivo e coerente das imagens. Em algumas peças, nota-se o lastimável regresso à linguagem retórica do primeiro livro; mesmo assim, não há grandes prejuízos para o estilo. É importante salientar que, apesar das muitas cenas idílicas que compõem a obra, há uma crítica social implícita nas imagens agrestes. Com efeito, ao se voltar com tamanha ênfase para a cultura e para a tradição sertaneja, O arado acaba se tornando um grito de resistência contra algumas atrocidades advindas com a modernidade; não é de estranhar, portanto, que a autora descreva de forma um tanto penosa as mudanças operadas na sociedade natalense.
Depois de O arado, Zila se voltaria com mais fervor para a carreira profissional de bibliotecária. Em 1961 foi para os Estados Unidos (Syracuse University) fazer um estágio na sua área de atuação. Em 1964 fez pós-graduação na Universidade de Brasília, ocasião em que começou o trabalho bibliográfico sobre Câmara Cascudo; esteve cerca de 5 anos voltada para esse projeto e somente em 1969 veio a luz o resultado de tanto esforço: o livro Luis da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual.
A próxima obra poética sairia apenas 1975, mas a verdade é que o tempo dedicado aos trabalhos bibliográficos acabou por imprimir um viés mais analítico e ordenado à sua poesia. Escrito lentamente ao longo de alguns anos (pois há manuscritos datados de 1962), Exercício da palavra é, sem dúvida alguma, o livro mais bem elaborado de Zila Mamede e denuncia uma escritora com pleno domínio de sua linguagem poética. De feitura que converge um pouco para o concretismo, o volume é um retrato da modernização por que passava a capital potiguar na época; a solidez das imagens é, portanto, uma forma condizente com o crescimento vertical da cidade. O discurso é claro, objetivo e espontâneo, o que resultou em um texto imune ao sentimentalismo piegas, muito embora ainda guarde o tom gracioso dos demais livros. Trata-se de uma obra eminentemente metalingüística, já que (mesmo quando não fala abertamente em poesia) é notório o interesse da autora em conseguir um impecável acabamento formal para seus poemas.
Embora pareça ser guiado pelo mesmo princípio estético do livro precedente, Corpo a corpo (1978) é uma súmula dos principais temas abordados pela a autora ao longo do tempo; nele aparecem tanto as imagens da nova realidade concreta, quanto as cenas familiares, nordestinas e cotidianas que marcaram suas primeiras obras. É uma espécie de testamento poético e, por isso mesmo, não é de se estranhar o fato de o livro ter sido publicado como acréscimo ao volume de suas poesias completas. Apesar da agradável sensação de ordenação e síntese, falta-lhe a força que consagrou os melhores anos da carreira literária da autora.
Se Corpo a corpo pode ser encarado como um testamento poético, então A herança (derradeiro volume de poesias, escrito em 1984) é um testamento familiar. Nele, Zila Mamede dialoga com amigos e membros da família, resultando em um doce e severo lirismo confessional. Embora a proposta seja interessante e pertinente, nem de longe o livro alcança o valor estético dos demais volumes poéticos; apesar de momentos de pura realização estética, a expressividade das imagens já não é tão notória e falta-lhe mesmo o trato apurado com a linguagem.
Zila Mamede morreu em dezembro de 1985, vítima de afogamento na Praia do Forte; ao que tudo indica, a autora deve ter sofrido uma vertigem enquanto nadava naquela manhã. Pouco tempo depois sairia o livro Civil geometria, uma anotação bibliográfica sobre a obra e a fortuna crítica de João Cabral de Melo Neto – projeto já concluído pela autora, mas que vinha sendo realizado desde 1976 e que lhe tomou os derradeiros anos de vida.